FUNDAÇÃO DE SÃO CARLOS DO PINHAL
Depoimentos de grande valor histórico e elucidativos que atribuíram aos Botelhos, o título e prerogativa de fundadores da cidade de São Carlos do Pinhal.

DEPOIMENTO No. 1

O VELHO ESCRAVO FELÍCIO BOTELHO
(Os escravos afeiçoados aos antigos senhores das terras, gozavam o
privilégio de assinarem o sobrenome dos mesmos.)

MEMÓRIAS DO VELHO ESCRAVO FELÍCIO

Consubstanciadas na carta transcrita abaixo dirijida ao autor de 1917; o original desta carta encontra-se arquivado em poder do autor e a disposição dos interessados

Jahú, 11 de agôsto de 1917

"Ilmo. Snr. Antonio Carlos Botelho
Segue, o Santo retrato de seu avô, que o snr me pedio para mandar. Nem o Snr (acha falta) que é neto não acha tanta falta de seu avô como eu. Eu entrei em companhia de seu avô quanto elle cazou-se com D. Francisca Tehodora Cohelho. Eu estimava esse casar como se fosse pae e mãe meu. Deus me perdoe algum erro delle e della que tenha sua alma no Glória. Eu mais duas rapariga sendo uma irmã minha e Raque e Caçemira seu avô cazou com usa avó estabeleceu em Piracicaba uma armazém de seccos e molhados. Eu de tanta atividade fui copero delle hia arrumar quarto delle encontrava Cinco mil reis aqui - dez acolá. Eu sempre dizia a elle eu tomo conta daqui acho guardo vem outro vai o carrega e eu fico comprometido. Despos elle acho tãi sufficiente a minha pessoa me poz para cacheiro de barcão na loja. As couza miúda eu vendia mas quando era conta grande chamava elle na loja.
Eu quando era noite entregava a chave da loja a elle e chegava cedo eu abria a loja espanava e depois sentava na cadeira como um fidalgo a esper de quem viesse comprar. um anno levei esta vida assi depois elle abrio uma padaria eu com um preto que elle tinha. E ahi ajustou um mestre francez para nos ensinar a fazer pão dahi 8 mez seu tio defunto snr João Carlos foi la na caza do Conde para cazar-se com D. Mariquinha Coelho. Então elle formou uma viagem até Limeira e as onze horas da noite cheguemos no Pinhal seu brisa avo falou o que elle faz do negócio. A que for molhado eu vendo e a loja muda na Araraguara. seu brisa avô respondeu ahi tropa e carro ahi tivemos dos dias e peguemos a tropa e carro e elle chegou la vendeu a padaria e o armazém e a fazenda imfardemo e levamos para Araraquara. E seu tio ficou mal com elle um anno Os dous já morreu Deus que tenha sua alma na Gloria seu brisa avô tinha plantado cinco mil pé de café e lidava com canna e algodão. depois invernou a cannavial a jesuino de Arruda que era tropeiro. Eu quando tinha 14 annos elle achou sufficiente para ser feitor mas elle diss que escravo faz o que a senhoria manda.
dahi a cinco mez e comprou 6 escravo a 11 mez compro 16 escravo 12 dahi a doze mez 28 escravo sendo de rapariga Joaquina minha mulhe para ser criada de Sinhá. Elle foi no Rio comprar escravo foi deixou a boa e volta encontro-a morta. Su brisa avo quando entregou a fazenda a seu avô deixou no testamento as cocaios (para) se elle morrer para por a capela de snr são Carlos nos cocaios dahi a 6 mez elle morreu Ahi seu avô tratou logo disso fui eu elle mas trez rapazes cheguemos lá na rua s. Carlos mandou pica fincou trez estaca e foi embora quanto foi 12 horas estava acabado a picada elle pareceu lá ai midimo deu dous alqueire de mata rocemos queimos destoquemos. Eu fui companheiro de abrir a fazenda de seu pae fui companheiro de abrir a fazenda S. Antonio.
fui companheiro de abrir o parmitar
fui companheiro de abrir a fazenda serra
fui companheiro de abrir a fazenda boa vista
fui companheiro de ajudar criar 13 filhos

Trabalhei muito com inteligência esperteza quen eu não esperava dessa ingratidão que me fizerãn dou graças a Deus Dr. Christiano me da um pedacinho de terra para esper que vocês socoran com alguma couza Eu quando enicei a com seu pae elle tinha So um, preto quanto quem que ajudou comprar quando deu liberdade elle estava com mas de quinhentos preto quem ajudou comprar
Aceite minhas lembranças minhas e de muitas lembranças a todos dahi
Do preto velho amigo"


Felício


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Ao Dr. Eugêio Egas, da Academia Paulista de Letras, genro e amigo de João Carlos de Arruda Botelho, colaborador de seu irmão Antonio Carlos, na fundação da cidade de São Carlos do Pinhal, foi solicitado fazer um ligeiro comentário sôbre a carta a mim dirigida pelo velho escravo Felício.
Apesar de sua avançada idade, ainda conserva plena lucidez de espírito e uma assombrosa memória, própria dos velhos da "terceira dentição", como dizia, o Senador Carlos José Botelho, aos noventa e três anos de idade, cujas reminicências do passado, eram também de assombrar, falhando, entretanto, em alguns fatos mais recentes.

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RESPOSTAS DO DR. EUGÊNIO EGAS, DADAS A UM QUESTIONÁRIO SÔBRE AS MEMÓRIAS DO VELHO ESCRAVO FELÍCIO

I. Qual o seu parecer sôbre as "Memórias" do velho escravo Felício, em carta a mim, Antonio Carlos (neto do Conde do Pinhal e bisneto de Carlos José Botelho - o Botelhão) endereçada de Jaú, em 11 de agosto de 1917.
Resposta: Li-a com a maior atenção e considero-a um depoimento de grande valôr histórico e elucidativo, que contribuirá para esclarecer devidamente certos pontos ainda obscuros da história sancarlense.

II. Conheceu pessoalmente o preto Felício?
Resposta: Conheci muito êsse escravo que foi cocheiro, homem de confiança e "facto totum" do Coronel Antonio Carlos de Arruda Botelho, posteriormtne Barão, depois Visconde e finalmente Conde do Pinhal, irmão de meu sogro João Carlos de Arruda Botelho.

III. Já tinha ouvido falar nos Cocaios, mencionado na carta?
Resposta: Sem dúvida alguma; o nome verdadeiro era... Cocaes e não Cocaios e fazia parte da Sesmaria do pinhal.

IV. Que tipo de homem era o Felício, para descrever com tanta minúcia e desembaraço passagens da vida de seus senhores, Carlos José Botelho, proprietário da Sesmaria do Pinhal e Antonio Carlos de Arruda Botelho - Conde do Pinhal - para cujo serviço passou posteriormente?
Resposta: Felício era um preto alto, forte, bem trajado e que desde logo inspirava confiança, como se depreende do que êle escreve e de tudo quanto afirma na carta. É fato sobejamente conhecido na família Botelho, que D. Francisca Theodira, primeira espôsa do Coronel Antonio Carlos e mãe do senador e celebre cirurgião Dr. Carlos Botelho, faleceu quando o seu marido se envontrava no Rio de Janeiro, em viagem de negócios, adquirindo escravos para a sua Fazenda do Pinhal. Entre êsses escravos - conta o Felício - encontrava-se a futura mulher dêste, a escrava Joaquina, que foi cozinheira durante longos anos no Pinhal. Ignoro se tiveram filhos.
Também é fato que em certa época, o meu falecido sogro, esteve de relações cortadas com Antonio Carlos, por questões de negócios.
Felício, o escravo de confiança, grande e fiel amigo do Conde do Pinhal, por quem nutria verdadeira estima e veneração, apelidava-se a princípio de Felício de Arruda, depois passou a chamar-se Felício Botelho ou Arruda Botelho, preferindo, mais tarde, ser chamado simplesmente de Felício do Conde do Pinhal.

V. Finalmente, "THE LAST BUT NOT THE LEAST"; a escôlha e marcação do lugar para a construção da futura capela em São Carlos, feita pessoalmente por Antonio Carlos, cumprindo assim a determinação de seu venerando e falecido progenitor - Carlos José Botelho - veio resolver alguma dúvida sôbre a fundação da cidade de São Carlos.
Resposta: A escôlha, demarcação do lugar e mais providências, onde seria erguida a Capela, feitas pessoalmente pelo Coronel Antonio Carlos de Arruda Botelho, em cumprimento de vontade expressa de seu progenitor, autórga a estes, sem dúvida alguma, - Carlos José Botelho e seu filho Antonio Carlos de Arruda Botelho - a primazia e a iniciativa na fundação de São Carlos, e confirma plenamente o depoimento dos antigos historiadores contemporâneos ao feito, como Paulo Delfino da Fonseca, Azevedo Marques, Moreira Pinto, Canutto Thormann, Adolfo Augusto Pinto, Cincinato Braga e outros, que atribuiram aos Botelhos, o título e a prerrogariva de fundadores de São Carlos do Pinhal.
A despretenciosa narrativa do velho escravo constitui mais uma das inúmeras confirmações dêsse fato.
Entretanto, a referência feita por Felício ao nome da Rua da Rua São Carlos, não quer dizer pròpriamente que já existisse naquela época com essa denominação, mas a menciona como um ponto de referência, assim como se diz: onde é hoje a Rua São Carlos.
Confirma, também, a plantação pelo velho Carlos José Botelho, de cinco mil pés de café, na Fazenda do Pinhal.


Eugênio Egas
21/1/1956

O Ten. Coronel Antonio Carlos de Arruga Botelho e sua primeira mulher
D. Francisca Teodora Coelho. (Fotografia que acompanhou a carta do
velho escravo Felício, remetida ao autor.)